Começos

Por We can be readers - julho 29, 2020

O livro A arte da ficção, de David Lodge, é um compilado das colunas que o autor escreveu para o jornal The Independent on Sunday - embora tenham passado por um processo de ampliação (visto o espaço mais calculado de um artigo de jornal). 
A obra em questão, geralmente utilizada em cursos de escrita, mas também ótimo recurso para abordar aspectos da literatura de modo mais direto, possui 50 capítulos. Junto com o comentário sobre o assunto abordado Lodge apresenta um autor e os trechos que exemplificam o que está tentando demonstrar. Para falar do Estranhamento em uma obra literária, ele usa excertos de Charlotte Brontë. 

Gostaria aqui de me deter em um aspecto, não por acaso intitulado "O começo". Lodge lança a pergunta: quando um romance começa? Para resolver a complexidade envolvendo a resposta, afirma: "o começo de um romance é a fronteira que separa o mundo real que habitamos do mundo que o romancista imaginou. Assim, ele deve nos 'transportar', como se costuma dizer". Os começos escolhidos por David Lodge foram Emma, de Jane Austen, e O bom soldado, de Ford Mador Ford.



Mas não vou ficar falando de todas as coisas de Lodge, só usei ele para trazer alguns começos bem interessantes que encontrei por aí nesses anos todos de leitura. 

Gostaria de abrir os trabalhos com o meu queridinho, Os miseráveis:

Em 1815, era Bispo de Digne o Sr. Charles-François-Bienvenu Myriel, um velho com mais ou menos setenta e cinco anos de idade, que aí residia desde 1806. 
Embora esse detalhe não afete de maneira nenhuma a essência de nossa narração, não é, contudo, inútil, ainda que não fosse senão para sermos exatos em tudo, reproduzir aqui os comentários sobre sua pessoa quando chegou à diocese. Verdade ou mentira, muitas vezes o que  se diz dos homens tem tanta importância em sua vida como o que eles realmente fazem (HUGO, 2012, p. 31-32, grifo meu). 

Essa frase grifada marca, para mim, aquela linha que separa o mundo palpável do mundo de Victor Hugo. O livro só melhora - quase não dá para sentir as 1958 páginas do romance (minha edição é aquela pocket em 2 volumes da Cosac Naify - saudades, por sinal). 

Outro começo muito estimado, que abre um grande livro, é esse aqui, Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez:

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo (MÁRQUEZ, n/p, grifo meu). 

Não poderia deixar de trazer mais um dos meus queridinhos, Erico Verissimo, no primeiro volume de O Continente:

Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno na solidão (VERISSIMO, n/p, grifo meu). 

Vocês devem estar se perguntando: ai que seleção mais canônica e masculina heterotopster. Vou dizer: desculpem a decepção, mas é isso aí mesmo. Acho esses começos bem emblemáticos e motivadores para que a pessoa embarque de vez nessas longas aventuras (o Gabo foi gentil de deixar os Buendías todos em um só volume). 

Porém, nem tudo é derrota: trago para vocês o começo de A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha:

Quando Eurídice Gusmão se casou com Antenor Campelo as saudades que sentia da irmã já tinham se dissipado. Ela já era capaz de manter o sorriso quando ouvia algo engraçado, e podia ler duas páginas de um livro sem levantar a cabeça para pensar onde Guida estaria naquele momento. É verdade que continuava a busca, conferindo nas ruas os rostos femininos, e uma vez teve a certeza de ter visto Guida num bonde rumo a Vila Isabel. Depois essa certeza passou, como todas as outras que teve até então (BATALHA, n/p, grifo meu).

Esse início consegue dar conta da personalidade de Eurídice: apaziguadora e obstinada. Capaz de esquecer Guida sem ao mesmo tempo esquecê-la completamente. Acho um livro bem importante para se pensar as questões femininas - embora haja sim um recorte de classe bem definido e a autora pontua essa escolha dentro do romance. 

Quando penso em escritas de mulheres que me impactaram, penso sempre em poesia. É claro que temos um vasto repertório de excelentes romancistas e contistas - essa obra da Martha Batalha é ótima, também já falei sobre Silvina Ocampo no podcast, estou planejando um dia falar mais sobre uma feliz descoberta desse ano, a Flannery O'Connor (já conhecia de nome, mas nunca havia parado pra ler algo completo). 

Acho que a poesia é sempre um convite, sempre um começo que se fecha em seu recomeçar. Der anfang ist die ende und der ende ist der anfang, já dizia a série Dark. Não seria nada mau acabar esse post com um poema, não é mesmo?

Hilda Hilst, em Da morte: odes mínimas, tem peças poéticas brilhantes. Hilst, taxada de louca, pornográfica, incompreensível, possui uma poesia possível, filosófica, de grande valor. Como fica registrado no poema XIX: 

Se eu soubesse
Teu nome verdadeiro
Te tomaria
Úmida, tênue
E então descansarias.
Se sussurrares
Teu nome secreto
Nos meus caminhos
Entre a vida e o sono,
Te prometo, morte,
A vida de um poeta. A minha:
Palavras vivas, fogo, fonte. 
Se me tocares
Amantíssima, branda
Como fui tocada pelos homens
Ao invés de Morte
Te chamo Poesia
Fogo, Fonte, Palavra viva
Sorte.

(HILST, n/p, grifo meu). 

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Até outro dia!

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